As Qualidades Indispensáveis do Despertar

despertarpor Adyashanti |

Na essência, a totalidade do empenho espiritual é muito simples: a espiritualidade trata essencialmente do despertar como sendo a consciência intuitiva da unidade e a dissolução do nosso apego à consciência egóica.

Ao dizer que a espiritualidade é uma coisa muito simples, não quero dizer que seja fácil ou difícil. Para alguns pode ser muito fácil, enquanto para outros pode ser mais difícil. Há muitos fatores e influências que desempenham um papel no nosso despertar para a realidade maior, mas os maiores fatores são em alto grau a nossa sinceridade, determinação e coragem.

A sinceridade é uma palavra que, ao ensinar, uso muitas vezes para transmitir a importância de se estar arraigado nas qualidades de honestidade, autenticidade e legitimidade. Não pode haver nada falso ou premeditado nas nossas motivações se devemos despertar totalmente para o nosso estado natural e íntegro de consciência unificada.

Embora os ensinamentos e os mestres possam nos induzir a olhar para dentro “para a paz que está além de todo o entendimento”, será sempre ao longo do fio da nossa sinceridade interior, ou da necessidade dela, que viajaremos. Pois o ego é inteligente e astuto na arte da dissimulação, e só a honestidade e a legitimidade do nosso ser inefável estão além da influência do ego.

A cada passo e a cada respiração é-nos dada a opção de agirmos e respondermos, tanto interna como externamente, a partir do condicionamento da consciência egóica – que valoriza o controle e a separação acima de tudo mais – ou a partir da consciência intuitiva da unidade – que reside no silêncio interior do nosso ser.
Sem sinceridade, é fácil até para os maiores ensinamentos espirituais virarem um pouco mais do que brinquedos da mente.

No nosso mundo veloz de consertos rápidos, de grandes promessas e de curtos lapsos de atenção, é fácil permanecermos em um nível muito superficial da consciência. Embora o estado desperto esteja sempre presente e mais próximo do que os seus pés, mãos ou olhos, ele não pode ser abordado de uma maneira descuidada ou não sincera.

Há um motivo pelo qual se pede aos buscadores do mundo inteiro que tirem os sapatos e falem em voz baixa antes de entrarem em lugares sagrados. A mensagem que é transmitida é que devemos “tirar e aquietar” o nosso ego antes de nos ser concedido o acesso ao divino. Todas as tentativas do nosso ego de controlar, de exigir e analisar a realidade não têm nenhuma influência, senão a de tornar a vida mais conflituosa e difícil. Mas uma mente aberta e um coração sincero têm o poder de nos conceder acesso à constatação do que sempre esteve presente desde o início.

Quando as pessoas perguntavam ao grande sábio indiano Nisargadatta qual ele achava que era a qualidade mais importante de se ter para despertar, ele dizia “a dedicação”. Quando você é dedicado, você é tanto sincero como determinado; ser determinado significa manter a atenção em uma coisa só. Descobri que a coisa mais desafiadora de se fazer para a maioria dos buscadores espirituais é ficarem concentrados numa só coisa por muito tempo. A mente pula pra lá e pra cá com os seus interesses e perguntas de momento a momento. É raro ela ficar com uma pergunta o tempo bastante para penetrá-la profundamente.

Na espiritualidade é muito importante não deixar a mente egóica ficar saltando de um assunto a outro como um cão não adestrado. Lembre-se, o acordar trata da constatação da sua verdadeira natureza e da dissolução de todo apego à consciência egóica.

Minha avó que faleceu há alguns anos costumava dizer-me jocosamente, “envelhecer não é para os medíocres”. Ela estava bem ciente dos desafios de um corpo que envelhece, e, embora nunca se queixasse ou sentisse qualquer compaixão por si mesma, ela sabia diretamente que o envelhecimento tinha seus desafios bem como seus benefícios. Havia uma coragem dentro de minha avó que lhe servia bem ao aproximar-se do fim da vida, e fico feliz em dizer que quando ela se foi, foi de uma maneira disposta e sem medo.

De uma maneira semelhante, o processo de chegar a um despertar pleno e maduro requer coragem, já que não só a nossa visão da vida, mas a própria vida se transforma para alinhar-se com a visão mística interior. Um coração sincero é um coração robusto e corajoso disposto a soltar-se diante da grande expansão desconhecida do Ser — uma expansão que a mente egóica não tem como saber ou entender.

Quando nossa consciência se abre além do estado onírico da consciência egóica para o nada infinito da consciência intuitiva, é comum para o ego sentir muito medo e terror quando começa esta transição. Embora não haja nada para temermos sobre o nosso estado natural do Ser infinito, tal estado está além da capacidade do ego de entender e, como sempre, os egos temem o que eles não entendem nem podem controlar. Logo que a nossa identidade deixa o reino do ego e assume o seu lugar legítimo como o infinito nada/tudo da consciência, todo o medo desaparece da mesma maneira como quando despertamos de um sonho ruim.

Da mesma maneira que minha avó dizia: “Envelhecer não é para os medíocres,” também se pode dizer que, para se fazer a transição do estado de sonho ao estado maduro e desperto, é preciso coragem.

Sinceridade, determinação e coragem são qualidades indispensáveis no despertar do estado de sonho do ego para a paz e a tranquilidade do Ser acordado. Só o que resta fazer é vivê-lo.

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